Em Joinville, lodo do tratamento de água da ETA Cubatão passou a virar tijolo e peças decorativas, reduzindo extração de argila e baixando o custo de produção em até 20%. Desde janeiro de 2025, a solução já gerou cerca de cinco milhões de unidades e 3 mil toneladas reaproveitadas aqui.
O tijolo que nasce onde antes havia descarte está mudando a rotina do saneamento e da indústria cerâmica no Norte de Santa Catarina. Em Joinville, o lodo gerado no tratamento de água deixou de ter como destino principal o aterro sanitário e passou a entrar na linha de produção de tijolos e peças decorativas, com ganhos ambientais e econômicos.
A virada acontece porque o resíduo da ETA Cubatão é transformado em insumo técnico, analisado em laboratório e misturado à argila em proporções controladas. O resultado é um material que reduz a pressão sobre jazidas naturais e ainda diminui o custo de produção de tijolos em até 20%, sem que a Companhia Águas de Joinville comercialize diretamente as peças, tarefa que fica com empresas parceiras.
Do aterro ao tijolo: o que mudou na destinação do lodo
Até o fim de 2024, os resíduos do tratamento de água da ETA Cubatão eram encaminhados para aterro sanitário, seguindo a orientação da legislação ambiental.
A destinação era considerada adequada, mas mantinha um efeito colateral relevante: mesmo em aterros, o lodo de ETA pode liberar gases de efeito estufa, o que reforça a busca por alternativas mais circulares.
Com o início da operação em janeiro de 2025, o resíduo passou a ter outro caminho: virar matéria-prima valorizada pela indústria cerâmica regional.
A mudança não é apenas logística; ela redesenha o papel do saneamento na cadeia produtiva, transformando um passivo em componente industrial, com rastreio, critérios e controle de qualidade.
Quanto custa, quem economiza e por que a redução chega a 20%
A economia aparece em duas frentes que se complementam. A primeira é a redução do custo de produção de tijolos, estimada em até 20% quando o lodo e componentes minerais entram na formulação. Esse efeito está ligado à menor dependência de argila como insumo principal e ao ajuste técnico da mistura, que permite incorporar o resíduo de forma controlada.
A segunda frente está fora da fábrica de cerâmica e dentro da operação de saneamento: ao reduzir o volume destinado a aterro, cai a necessidade de transporte do lodo, gerando uma economia de cerca de R$ 40 mil por mês.
Entre janeiro e dezembro de 2025, mais de 3 mil toneladas de lodo da ETA Cubatão foram aproveitadas, diminuindo o fluxo de descarte e reforçando a lógica de reaproveitamento.
O caminho do lodo: ETA, ETL, Tijucas e o destino final na cerâmica
Após a produção de água, o resíduo segue para a ETL (Estação de Tratamento de Lodo), dentro da área da ETA Cubatão. Ali ocorre a prensagem, etapa essencial para dar previsibilidade ao material, já que o lodo precisa sair com características mais estáveis para ser trabalhado como insumo industrial.
Depois dessa etapa, o lodo que sai da ETL contém cerca de 20% de sólidos e é transportado até Tijucas, na Grande Florianópolis, onde é beneficiado e armazenado em galpão.
Esse deslocamento não é detalhe: ele mostra que o projeto depende de uma cadeia integrada, em que saneamento, beneficiamento e produção cerâmica se conectam para que o resíduo chegue ao ponto certo com a qualidade necessária.
O controle técnico que evita improviso: laboratório, análises e proporção variável
Antes de virar tijolo, o lodo passa por avaliação em um laboratório especializado em cerâmica, a Safira Soluções Minerais. As amostras são analisadas com critérios físicos, químicos e térmicos, e é a partir desses resultados que a equipe orienta a mistura tecnicamente adequada de argila e lodo, evitando decisões “no olho”.
A proporção não é fixa porque a composição do lodo varia de acordo com as condições naturais do manancial.
A referência operacional informada é de 40 a 60 gramas de lodo para cada quilo de argila, ajustando o processo conforme a necessidade.
Depois do processamento, novas amostragens e análises são feitas para garantir a qualidade do produto final; só com o lote aprovado o material segue para uma fábrica de cerâmica estrutural em Canelinha, onde entra na produção de tijolos.
Milhões de peças e um efeito direto sobre argila e jazidas naturais
Desde o início da operação, em janeiro de 2025, foram produzidos cerca de cinco milhões de tijolos que contêm lodo de ETA. O número dimensiona o alcance do reaproveitamento: não se trata de teste pequeno, mas de uma produção que já alimenta a lógica industrial, com volume e repetição.
Ao mesmo tempo, a iniciativa reduz a extração de argila em jazidas naturais. Menos pressão sobre jazidas significa menos abertura de áreas, menos remoção de solo e menor impacto associado à cadeia de insumos, especialmente em regiões onde a demanda por cerâmica estrutural é constante.
A proposta combina preservação ambiental e viabilidade econômica, ao trocar descarte por insumo.
O próximo passo: ETA Piraí e o avanço do reaproveitamento no município
Joinville tem outra estação de tratamento além da Cubatão: a ETA Piraí, que atende 22% do município e gera mensalmente 15 toneladas de lodo.
O material também será destinado à produção de peças cerâmicas após as obras de modernização da unidade, ampliando a abrangência do reaproveitamento.
Esse avanço é relevante porque mostra uma transição do “projeto de uma estação” para uma lógica municipal de destinação do resíduo.
Quando a segunda unidade entra no circuito, o reaproveitamento deixa de ser exceção e começa a virar padrão operacional, com potencial de reduzir ainda mais a dependência de aterro e consolidar a cadeia cerâmica como destino contínuo do material.
Reconhecimento e prêmio: quando o saneamento circular vira referência
Em dezembro de 2025, a iniciativa foi premiada com o 1º Prêmio INOVACIJ, promovido pela Associação Empresarial de Joinville.
Com o nome “Saneamento Circular: do lodo à cerâmica sustentável”, o projeto venceu na categoria produto e no segmento de empresa de médio porte, reforçando que o reaproveitamento não é só ambiental, mas também inovador.
O prêmio ajuda a traduzir o que, na prática, já aparece nos números: toneladas reaproveitadas, economia mensal, redução de extração e milhões de tijolos produzidos.
Quando um resíduo do saneamento vira matéria-prima industrial com padrão técnico e rastreabilidade, a cidade deixa de falar só de descarte e passa a falar de cadeia produtiva.
Joinville transformou um resíduo que seguia para aterro em tijolo e peças cerâmicas, com redução de custo de produção em até 20%, economia de transporte de cerca de R$ 40 mil por mês e mais de 3 mil toneladas reaproveitadas em 2025.
O lodo da ETA Cubatão passa por prensagem, beneficiamento, análises laboratoriais e mistura controlada com argila antes de chegar à cerâmica estrutural, e a rota deve se ampliar com a ETA Piraí após modernização.
Fonte: CPG