Mercado de resíduos: uma fonte de investimentos bilionários

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Workshop em SP celebrou 20 anos da Política Estadual de Resíduos Sólidos, reunindo dados e soluções para o que já foi chamado de “lixo”

Os resíduos deixaram de ser “lixo” e passaram a ser matéria-prima de um mercado em desenvolvimento. O que era antes descartado, já pode se transformar no começo de outras cadeias produtivas. Infelizmente, a economia circular não caminha na mesma velocidade que a geração de resíduos. No Brasil, hoje, cerca de 8% dos resíduos sólidos urbanos são reciclados. Um índice abaixo do ideal, mas que aponta para um crescimento significativo frente aos 4% de reciclagem do volume gerado em outros anos.

O que fazer para mudar este cenário? Como o país está depois de 15 anos da aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos? Para responder essas perguntas e compartilhar dados e caminhos possíveis, a Ambiente Valverde, realizou um workshop técnico na sede da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental, em São Paulo, e confirmou o apetite dos investidores por essa nova fase econômica do mercado.

Somente o estado de São Paulo gera, diariamente, 40 mil toneladas de resíduos urbanos. Essa escala industrial tem atraído aportes vultosos, como os da Orizon, que hoje já processa 8 milhões de toneladas por ano (11% do total gerado no país) e passará a processar 14 milhões de toneladas por ano. No segmento de tecnologia, a Circular Brain revelou já ter injetado R$ 45 milhões na cadeia para recuperar metais nobres essenciais à indústria de semicondutores e à inteligência artificial.

Para José Valverde, mestre em Direito Ambiental Internacional e CEO da Ambiente Valverde, o momento é de converter o avançado ordenamento jurídico do país em rentabilidade operacional.

“O setor de resíduos sólidos passou por uma transformação profunda e hoje é um vetor de desenvolvimento econômico. Materiais que antes eram descartados passaram a ser valorizados, e as empresas agora investem em soluções ambientais como estratégia de competitividade.”

Mineração urbana e transição energética

O reaproveitamento de materiais foi apontado como vital para a independência da indústria e a soberania de insumos. Com 25 anos de experiência na articulação de marcos regulatórios, José Valverde destaca que o Brasil já possui o alicerce para liderar essa transição.

“Compreender a política pública é compreender para onde o mercado está caminhando. As diretrizes atuais criam ambientes que estimulam novas rotas tecnológicas e garantem que o resíduo seja tratado como matéria-prima de alto valor”, pontua Valverde.

E o debate no evento trouxe dados que comprovam essa tese:

  • Matriz limpa: A Verdera Solutions (Votorantim) destinou 1,3 milhão de toneladas de resíduos para coprocessamento no último ano, gerando energia térmica para a fabricação de cimento e substituindo combustíveis fósseis.
  • Recuperação de insumos: A Circular Brain opera hoje com mais de 17.000 pontos de coleta em todo o território nacional, tendo retornado 53 mil toneladas de eletrônicos ao ciclo produtivo em 2024.
  • Descarbonização: O programa Mãos Pro Futuro (ABIHPEC / ABIPLA / ABIMAPI / ABRAFATI / ABIÓPTICA) já recuperou 1,15 milhão de toneladas de materiais, evitando a emissão de 4 milhões de toneladas de gases de efeito estufa em uma década.

Inovação e novos modelos de negócio

O evento demonstrou que o futuro do setor exige inteligência estratégica para antecipar tendências. No entanto, a indústria enfatizou que, para avançar em sustentabilidade e atrair investimentos, as políticas públicas precisam garantir quatro premissas: previsibilidade, segurança jurídica, viabilidade técnica e viabilidade econômica.

Para o diretor do Departamento de Resíduos Sólidos do Ministério do Meio Ambiente, Eduardo Rocha, o Brasil já lidera com o melhor sistema de monitoramento de recicláveis do mundo, tendo dobrado de tamanho com um aumento de 70%.

“Sabemos a origem e o destino final até chegar à indústria. É fundamental ter uma legislação que traga segurança jurídica para integrar a economia do setor de resíduos com a indústria”, afirmou Rocha.

Reforçando essa necessidade de monitoramento, o evento destacou o papel da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA), presidida por Pedro Maranhão, e o Sistema Reciclômetro. A ferramenta, que nasceu como uma startup, integra a gestão da coleta e comercialização de resíduos. Hoje, o sistema é adotado por todas as cooperativas ligadas ao spRegula e pelas centrais mecanizadas de São Paulo, permitindo que o mercado e os órgãos públicos operem com dados auditáveis e rastreabilidade total.

Neste cenário, a integração tecnológica e a economia de dados surgem como diferenciais competitivos fundamentais. Entre os exemplos, temos:

  • Economia de dados e geopolítica: O painel alertou que não existe economia circular sem uma economia de dados e rastreabilidade. A reciclagem de eletroeletrônicos tornou-se uma questão geopolítica, pois minerais críticos (como cobre, cobalto e lítio) são fundamentais para a transição energética e inteligência artificial.
  • Aproveitamento energético regionalizado: Foram apresentados casos práticos de inovação, como no Pará, onde organizou-se uma cadeia para utilizar o caroço do açaí como biomassa para energia, e no Paraná, onde rejeitos de cooperativas são transformados em Combustível Derivado de Resíduo.
  • Ressocialização e renda: O case da JG Recicla exemplifica o potencial empreendedor do setor: a empresa opera a desmanufatura de eletrônicos e já incubou 12 novos microempreendedores que agora possuem seus próprios CNPJs.
  • Escala regional: A regionalização e as soluções consorciadas permitem maior eficiência dos recursos aplicados no manejo, destravando o potencial econômico brasileiro em escala nacional.

Apesar do otimismo e das cifras bilionárias, o workshop fez um alerta contundente sobre a vulnerabilidade da base dessa cadeia produtiva. Estima-se que mais de 800 mil pessoas vivam da coleta de materiais no Brasil e que 90% de toda a reciclagem passe pelas mãos dos catadores.

Atualmente, segundo representantes da categoria presentes, como o presidente da Federação Paulista de Cooperativas de Reciclagem, Jair do Amaral, ressaltaram que esses profissionais trabalham sem remuneração pela prestação do serviço ambiental, recebendo apenas pelo peso do material comercializado.

O cenário é agravado pelo recente retorno da cobrança de PIS/COFINS, que gerou uma taxação de 9,25% sobre o setor. Segundo os debatedores, esse custo tributário está sendo empurrado para o elo mais fraco, o que pode reduzir em cerca de 10% a renda final dos catadores e empurrá-los de volta para a informalidade.

Fonte: Ciclo Vivo